Oca

Oca

boca de beijar

boca de lamber

de chupar

sentir

boca de sussurrar

de acarinhar

gemer

conquistar

boca de falar

de gritar

requisitar

surtar

boca de não engolir

talvez até verter

será anorexia

ou falta temporária

de poesia?

(*) Doodles eyes, desenho da inglesa Abe.

Entrevista

Ghost-writers sempre existiram, mas antigamente era proibido se falar
a respeito, quase um tabu. Embora grandes escritores tenham se dedicado
a essa atividade como meio de sobrevivência, como Clarice Lispector e
Autran Dourado, por exemplo, eles nunca puderam admiti-lo publicamente.

Com o incremento do mercado editorial, mais personalidades passaram
a ser convidadas a escrever seus livros, mas elas nem sempre têm
tempo ou habilidade para fazê-lo, e precisam de ajuda, o que levou o
trabalho do ghost ser cada vez mais valorizado e reconhecido.

Quer saber como isso funciona? Aqui a entrevista que dei para o
programa “Opinião Livre”, da TV Unip (Canal Univesitário) que foi ao ar
na semana passada. Nele, a simpática apresentadora Silvia Vinhas me faz
as perguntas que muita gente gostaria de fazer.

 

Amputação

 

Com o tranco, a cabeça girou totalmente para trás como se não tivesse eixo, o corpo ameaçou despencar. Um dos braços caiu no chão com um estalo oco. A noite começava a abraçar a cidade, mas a claridade nonsense do branco rosado iluminando a cena bizarra chamou a atenção de Otavio, que acabara de estacionar naquela rua de muito trânsito mas poucos pedestres àquela hora.

O embate daqueles dois corpos durou um tempão e a cena, bastante sensual fez Otavio esquecer-se da pressa e do compromisso e permanecer sentado ao volante para apreciar a cena. Ele, tão acostumado a consertar ossos e esqueletos, ortopedista que era, encantou-se com essa outra forma de lidar com o corpo humano. A balconista de pernas tão longas quanto o manequim sofria para mudar o figurino e deixar a vitrine pronta  para o dia seguinte. Era excitante ver a garota magra roçando as ancas com a boneca angulosa na tentativa de recolocar o braço caído, abrir um zíper, puxar as mangas, tirar-lhe o vestido. Agora totalmente nu, ela começou a cobri-lo outra vez. Ajeitava a nova roupa, cobria um seio, subia a barra expondo as coxas, alisava a cintura. Parecia quase um balé, mais um carinho meio desajeitado. Demorou, mas logo o manequim estava totalmente renovado, membros e cabeça no lugar, quadris tortos e empinados, numa daquelas estranhas posições de vitrine. Esquecido do tempo, meio excitado e divagante, ele viu a garota satisfeita com o resultado, abaixar-se junto à parede para apagar o refletor que jogava a luz rosa de baixo para cima e carregar as peças que substituíra para dentro.

A rua ficou ainda mais escura quando a vitrine se apagou, mas uma luz tênue vinda lá do fundo permitia que um observador mais atento acompanhasse vagamente o que acontecia no interior da boutique. Concentrando o foco, segundos depois Otavio viu a vendedora sair do provador vestindo a roupa que tirara do manequim e, com jeito feliz, dar pulinhos de alegria admirando-se de longe no espelho. Mesmo naquela semidistância ele estava certo: o vestido de um azul royal intenso caía muito melhor na garota pernuda do que na boneca sem vida. Ela desfilava para alguém. Logo o médico constatou que era para a gerente da loja, mulher de tipo encorpado e seios fartos que parecia elogiar o conjunto da obra, alisando o modelo e a modelo, e esta demonstrava gostar dos afagos. Segundos depois ela colava seu corpanzil ao da jovem num abraço apertado, iniciando um erótico jogo de ancas, um abaixa-levanta meio desastrado que as fez caminhar enlaçadas e trôpegas até a lateral da loja, numa área menos iluminada.

Agoniado, Otavio saiu do carro, e sem se preocupar se estava sendo visto, aproximou-se da vitrine e, riscando o olhar pela penumbra, localizou a garota apoiada no balcão e a gerente com o rosto enfiado entre as suas pernas. A jovem revirava a cabeça, e de vez em quando olhava para ver o que a outra estava fazendo, e parecia delirar. Quando parecia que havia terminado, elas voltaram a se abraçar, e a garota começou a retribuir toda a sequencia.

Aquilo pareceu a ele durar uma eternidade. De repente Otavio sentiu o celular vibrar em seu bolso.

– Oi, mano, já pegou a Fernanda? Tá todo mundo aqui esperando vocês.

– Não peguei não – respondeu o médico enquanto tentava reordenar os pensamentos.

– O que foi, está preso no trânsito?

– Não, tá tudo livre, em poucos minutos eu chego. Mas a Fernanda teve um contratempo e não poderá ir.

– Puts, melou a surpresa então. Você vai ter que adiar o pedido…

– É, melou.