Roupa suja

 

Poxa, Carlinhos, depois de tudo que a gente viveu, de tudo que a gente superou, não acredito que, agora, você vai me deixar de vez. Nunca te vi tão revoltado, meu nego. Eu sei que já pisei na bola contigo várias veiz….Como aquela em que fiquei um tempão dando mole pro fiscal do ponto de ônibus. O cara foi se engraçando, engraçando, até que um dia ele, bem animado, me chamou prum particular, uma cervejinha e tal. Eu disse que não, claro, e fiz o cara desistir de sair comigo. O problema foi que o Ednaldo – esse o nome dele – era muito banderoso, tão banderoso, que todo mundo na fila viu ele dando em cima de mim, cochichando elogios no meu ouvido, falava umas sacanagenzinha… Mas era só brincadeira, a gente não tava fazendo nada de mau pra ninguém. Só que o povo comentou tanto que você descobriu, armou o maior pampeiro, gritou comigo, deu umas porrada no cara, mas viu que eu tava de inocente. Só deixei o cara me paquerar, foi isso….Ei, não vira as costas prá mim, Carlinhos! Tou falando com você! Aliás, essa história do fiscal só aconteceu quando que eu descobri que você tava dando encima daquela loira, que trabalha contigo na loja de carro. Não tou me justificando, mas bem que naquela época você não tava me procurando muito, e eu tava era carente, me sentindo péssima, a última das mulher, e queria me sentir gostosa, podendo… Porque, cara, na boa, aquela loira falsa era feia pra caramba… uma baranga … peituda e com banha saindo pra tudo quanto é lado… Tá bom… não vou ficar aqui puxando assunto velho, até porque na época você jurou pela sua mãe que nunca teve nada com aquela lambisgoia, que foi tudo imaginação minha. É, mas não foi imaginação minha aquele chupão no pescoço que apareceu bem naqueles dia que você chegava tarde, jurando que tinha ido só tomar uma cervejinha com os amigo. Quando subi nas tamanca querendo saber o que era aquele roxo ali, tu jurou que foi porque topou com uma prateleira lá na Ford bem encima daquela corrente grossa de ouro que você não tira por nada nesse mundo. Disse que foi o raspão da corrente com a madeira que deixou o roxo… Tá bom… fiz que acreditei, até porque, logo depois, a mocreia mudou de cidade e vazou, e achei melhor deixar pra lá. Também, cá pra nós, eu não queria brigar com o meu nego, o único homem neste mundo capaz de me fazer ir pro céu muitas vez na mesma transa. Adoro quando você, todo orgulhoso depois de me deixar troncha, feliz e derrubada na cama, diz que tem a língua treinada na máquina de costura…. caio na risada feliz e molinha, e faço que acredito porque é bom demais da conta e peço mais e mais. Tu sabe que é bom, neguinho, e que me derreto toda só de chegar perto de tu. Cada vez que a gente transa gostosinho daquele jeito que só tu sabe fazer, saio pelo bairro com cara de mulher bem comida, e deixo as colega tudo morrendo de inveja. Poxa, Carlinhos, eu aqui abrindo o coração e você quieto, se fazendo de morto… Fala alguma coisa, neguinho. Não faz que não tá ouvindo. Sei que já pisei na bola muitas veiz. Sei também que você não esquece que deixei o Seu Tonho da padaria me levar lá pra dentro da loja, e me dar umas encoxada. Só que, na hora que ele veio com aqueles beijo babado, não gostei e sai correndo, arrumando a saia. Eu fugi do cara, fui decente, quem tava lá viu, mas o pior foi que você soube. Sempre tem um filho de uma égua que entrega tudo. Daquela vez você ficou tão puto que ameaçou até me bater. Morri de medo, rezei pra tudo quanto é santo, mais depois de uns tempo, acho que uns três dia, você acabou acreditando que eu tinha era nojo daquele homem e resolveu deixar pra lá. E, graças ao bom pai, voltou a me comer gostosinho de novo. Carliiiiiinhos, não finge que tá dormindo não, porque eu sei bem que você está me escutando, viu? Não pensa que você é santo e que sou sempre a errada. Eu também te perdoei, mesmo depois de ter visto com estes olhos aqui, ó, você passando a mão na bunda da Efigênia, a nossa faxineira, quando ela tava esfregando os pano no tanque. Mas achei melhor perdoar porque você tava era muito bêbado aquele dia, e também porque a Efigênia é evangélica e, ainda por cima, a coitada tem bunda de gaveta, daquelas de revéis. Só bêbado pra querer bolinar aquilo ali… Falo tudo isso pra você lembrar bem de todas as encrenca que a gente deixou pra lá, quanta coisa a gente passou junto, quanto dengo eu já te dei, meu nego…não acredito que, agora, justamente agora que eu tava pensando em fazer filho e tal, tu tá falando que vai me deixar de vez só porque, por engano, coloquei na máquina aquela tua camisa do Corinthians autografada…

 

(*)Texto publicado no Coletivo Clarabóia, onde gentilmente estou como convidado especial do mês, numa linhagem que começou com Luiz Brás e Marcelo Maluf. Não é um privilégio? http://coletivoclaraboia.wordpress.com/

(**) Capa da Playboy México, novembro de 1999

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Retrato falado

Os papéis amarelam-se, as lembranças ficam amassadas, puídas, pouco a pouco me apago nos retratos.  Onde foi parar todo aquele sentimento? Para onde foi aquela garota risonha de olhos vivos e ingenuidade tão genuína quanto improvável? Inviável. Era jovem demais para ser julgada, crescida demais para ser perdoada. E a vida não nos protege dos deslizes nem releva as esperanças.

Nem sei bem quando aconteceu. Num passo em falso despenquei. Mais dolorida a queda dos confiantes. Não contei com a idade e a chegada dos medos, da falta de força e do começo das desistências. Primeiro desisti da liberdade, depois dos sonhos e, por fim, desisti de mim.  Construí um personagem, esse sim plenamente aceito, conveniente e capaz de enfeitar qualquer ambiente, como um objeto de decoração, dentro do molde. Nem uma cor a mais, nem um som, um trejeito. Um ser que não destoa. No começo, ainda havia o sentimento do desconforto. Mas o tempo traz o hábito. Hoje, lá fora me sinto em perigo. Dentro, confortavelmente presa.  Na gaiola, meu canto é um pranto afinado como água corrente.

 

 

*”Venise celeste”, by Moebius, um dos pseudônimos do ilustrador francês Jean Giraud (1938/2012) que se dedicou aos quadrinhos e ao cinema.

Rotina

Segunda era dia de TV, sua cabeça em meu colo. Terça era a sopa de feijão bem grossa,  pedaçuda e os assuntos do trabalho. Quarta era o sexo rápido depois do futebol, só um picote no cartão, não me exigia muito. Quinta tudo o que ele queria era a massagem em seu corpo já todo dolorido da lida na fábrica. Sexta, o cansaço, o sono mais rápido. Todo sábado não podia faltar o pastel na feira, a pizza, a cerveja, coisa simples. E toda santa manhãzinha de domingo, o sexo mais demorado, mas era fácil, eu meio dormindo deixava tudo. Raul era assim, todo regrado, de pequenos quereres e atenções, de nada reclamava, se contentava no raso. Anestesiada, custava pouco atender. Só uma vez disse não: foi quando ele perguntou se eu era feliz. Dois dias depois, pediu preu sair.

(*) “Vaca no carro amarelo”, by Ana Prata