Retrato falado

Os papéis amarelam-se, as lembranças ficam amassadas, puídas, pouco a pouco me apago nos retratos.  Onde foi parar todo aquele sentimento? Para onde foi aquela garota risonha de olhos vivos e ingenuidade tão genuína quanto improvável? Inviável. Era jovem demais para ser julgada, crescida demais para ser perdoada. E a vida não nos protege dos deslizes nem releva as esperanças.

Nem sei bem quando aconteceu. Num passo em falso despenquei. Mais dolorida a queda dos confiantes. Não contei com a idade e a chegada dos medos, da falta de força e do começo das desistências. Primeiro desisti da liberdade, depois dos sonhos e, por fim, desisti de mim.  Construí um personagem, esse sim plenamente aceito, conveniente e capaz de enfeitar qualquer ambiente, como um objeto de decoração, dentro do molde. Nem uma cor a mais, nem um som, um trejeito. Um ser que não destoa. No começo, ainda havia o sentimento do desconforto. Mas o tempo traz o hábito. Hoje, lá fora me sinto em perigo. Dentro, confortavelmente presa.  Na gaiola, meu canto é um pranto afinado como água corrente.

 

 

*”Venise celeste”, by Moebius, um dos pseudônimos do ilustrador francês Jean Giraud (1938/2012) que se dedicou aos quadrinhos e ao cinema.

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