O compromisso

A luz da manhã vaza em listras sutis pela persiana. O sol começa a se impor lá fora. Mas o coração de Pedro amanhece às escuras. Ao seu lado na cama, um corpo de mulher em sono largado. Aos poucos ele vai tomando ciência de onde está, identificando o ambiente, ouvindo a cidade que acorda. Restos da noite espalhados pelo chão, de si mesmo só restos, quase um nada. Como é mesmo o nome da garota? Tenta lembrar, mas não consegue. Tudo são flashes: a balada, ela dançando, o quadril imperioso mostrando que queria, o perfume caro e adocicado demais, a chave na fechadura, a pegada selvagem de ambos em vários cantos daquele apartamento. Não lembra como chegou ali, talvez no carro dela. Os olhos estão embaçados, a cabeça pesa. Pesa menos que a culpa, é certo. Puta que pariu, ninguém lembrou de usar preservativo! Por que ainda não aprendeu a fugir de roubadas? É a segunda vez só este mês que o happy hour com os amigos estica dessa maneira, caramba. Podia ter parado no segundo whisky, lamenta-se, mas agora é tarde. E se a garota acorda? O que há para falar com ela? A vontade é desaparecer. E então bem lentamente vai se desvencilhando do lençol. Anfíbio, rasteja pelo chão procurando o figurino de seu triste personagem. Meias debaixo da cama, a calça amarfanhada num canto, a cueca no banheiro. Olha para o espelho e tem raiva do que vê, olhos injetados, olheiras, um fiozinho ainda de pó no canto da pia. Abre a porta com cautela, e na sala encontra a camisa que veste apressadamente. Pega o paletó e já está quase saindo quando nota sobre a mesinha do telefone um bloco de recado. Vai até ele e escreve “Valeu. Um beijo, gata”.

Assim que bate a porta arrepende-se de tudo, até do bilhete, mas não tem como voltar o filme. Está feito. Sente-se um completo cafajeste. Com passos rápidos, dá a volta no quarteirão, entra numa padaria, e enquanto aguarda o expresso no balcão, liga para Beatriz: Oi amor, bom dia. Que hora mesmo começa nosso curso de noivos?”

(*) foto de Ernest Protasiewicz

Um futuro sem sonhos

Muitos autores sofrem para escrever mas, para alguns, esse é um ato prazeroso. É justamente esse prazer de narrar o que mais fica evidente em Réquiem: sonhos proibidos, romance de estréia de Petê Rissatti que nos propõe pensar num futuro em que o mundo é regido por um governo totalitário que, temendo a natureza anarquista dos sonhos, proíbe as pessoas de sonhar.

Na trama, os cidadãos são avisados por carta que, a partir daquela data, todos terão de tomar o Réquiem (Repressor Químico para Ecmnésia Mensurada), um medicamento que anula qualquer possibilidade de sonhos, distribuído gratuitamente e de uso obrigatório. Todo e qualquer sonho será rastreado e a punição implicará em multas e execuções. Ninguém quer se arriscar, mas Ivan G., um mero funcionário público, certo dia se esquece de buscar sua cota mensal do medicamento, pega no sono sem antes tomar a sua dose diária e, inadvertidamente, acaba cometendo o crime. A partir daí, a vida desse burocrata pacato, nada ambicioso e que jamais cultivou pensamentos subversivos sofre uma reviravolta e ele se vê envolvido com os revolucionários Sonhadores, numa batalha de morte da resistência armada com o Governo opressor.

À primeira vista, a premissa soa simples, mas ela discute a questão do uso pervertido dos avanços da tecnologia por líderes destituídos de ética. Como escreve Luiz Brás na orelha do livro “O controle absoluto da mente dos cidadãos, de sua subjetividade, sempre foi a aspiração suprema de todos os Estados totalitários. Se no século 20 ainda não havia tecnologia capaz de realizar esse desejo, nada garante que as ditaduras do século 21 não desenvolverão tal tecnologia […]com novas e mais refinadas técnicas de controle psicológico e social.”

Com enredo fluido em parágrafos longos (característica da escrita alemã adquirida em seu trabalho como tradutor), Petê leva o leitor a um passeio nos meandros do poder e seus desvãos, bem como no coração do comando dos insurgentes por meio de personagens bem construídos. Realidade e ilusão parecem se misturar até o desfecho final, absolutamente inesperado, que nos faz rever mentalmente toda a história e tentar descobrir quando ela de fato começou e, se sequer, terminou. Um feito e tanto para um autor jovem, com apenas dois contos publicados em antologias.

Na contramão das amenidades perversas feitas para embotar a capacidade pensante do leitor, pode-se dizer, sem medo de errar, que Réquiem: sonhos proibidos se constitui numa boa aposta da Terracota Editora cuja proposta é investir na produção nacional, tendo em seu catálogo autores consagrados como Moacyr Scliar, Raimundo Carrero, Márcio Souza, Menalton Braff, Nelson de Oliveira, Andréa Del Fuego, Tatiana Belinky, Heloisa Pietro, entre outros.

Réquiem… é um belo exemplo da atual boa literatura de entretenimento. Atentas ao mercado, as grandes editoras estão abrindo espaço para esse seguimento e criando novos selos, pela sua simples capacidade de atrair o leitor jovem ou o leitor bissexto, aquele que raramente lê ficção. Com essa estréia, Petê Rissatti mostra que veio para ficar, pois ele nos conta que já tem gente pedindo a continuação dessa história. Quem sabe um Réquiem nº 2. Mas a minha sugestão é que ele nos traga um “Pré-Réquiem”, já que as origens de Ivan G prometem render histórias bem estimulantes.

208 páginas – R$ 35,00

Pode ser encontrado Na Livraria Cultura: http://virou.gr/MhYIeD
Na Livraria da Folha (com desconto): http://virou.gr/M02gOC
No site da Terracota (com desconto): http://virou.gr/M02lBP

Além mar

 

Gente, é com muita alegria que compartilho com vocês uma boa novidade: o lançamento no último sábado, 30 de junho, em Lisboa, da antologia Corda Bamba, pela Pastelaria StudiosEditora, que reúne autores portugueses, brasileiros e de
alguns países latinoamericanos. Nele participo com o conto “Emoções Puídas”, aqui na integra. É o universo de Nanete seguindo além-mar. Estou muito feliz.

Emoções puídas

A vida corre lá fora, mas dentro daquele Homem-Saudade o tempo praticamente parou. A casa é um caos de embalagens de comida delivery abandonadas pelos cantos, pilha de louça na pia, roupas há muito aguardando serem lavadas, as paredes sujas e descascadas.

Poucos móveis restaram por ali, a maioria foi aos poucos sendo destruída pelos habitantes de quatro patas. A maior diversão de Groucho é roer pés de sofá e todas as madeiras à vista até que desapareçam totalmente. Já Blanca assumiu a velha poltrona como território seu depois de criar um ninho dentro da espuma com as unhas afiadas de felina. Scooby, o maior de todos sente-se o rei do pedaço, ameaça a todos com seu latido selvagem, e larga por todo lado pêlos que se misturam aos do Capitão, da Palito e do Bolão formando bolas enoveladas espalhadas pelo espaço que, um dia, foi confortável.

Ceder é o verbo preferido do Homem-Saudade. Foi assim quando Ninica resolveu que seu lugar era o velho monitor, e ele então teve que aprender a trabalhar com o “S” do rabo dela decorando a tela. Com o tempo, o velho monitor de tubo foi aposentado e empurrado para o fundo da mesa entulhada de coisas, sendo substituído por uma tela fina e fria. Desde então, a gata passa os dias na escrivaninha e, quando quer calor, ela se aninha no ombro miúdo do seu dono que, por conta disso, teve que aprender a digitar com uma mão só. A outra fica ocupada em ajudar a bichana nesse precário equilíbrio.

Luther é especialista em vinil, e desenvolveu sofisticada técnica de reduzir a cacos exemplares raros da antiga coleção do seu dono. Não todos, é claro, apenas aqueles que ele mais gostava de possuir. E de ouvir, quando ele ainda se permitia esse luxo. Faz tanto tempo que ele esqueceu-se de si, que já não liga mais para perdas. Deixou de sentir o nauseante cheiro de excremento animal que domina o seu lar, preferindo recordar-se do suave perfume do bebê que, anos antes, e por um tempo tão curto alegrou aquele espaço, até um dia dormir para nunca mais despertar.

Fora os bichos, o trabalho insano e solitário como tradutor naquelas teclas, uns poucos amigos que vê raramente, e o conhaque, companheiro habitual, a leitura é seu passatempo mais querido e constante. Por isso guarda os livros dentro do único armário que restou mais ou menos inteiro no imóvel.

É quando ele se aninha na cama com um volume na mão, cercado da dezena de animais, que ele pode escapar para outros mundos. Só assim ele consegue esquecer por instantes daquela que, para suportar a perda precoce daquele nenê tão esperado, começou a pegar animais abandonados pelas ruas acreditando que, assim, a sua dor ficaria mais leve. Não ficou. Um dia ela fez a mala para temporada de trabalho no exterior e nunca mais voltou, deixando com o marido os bichos que eram dela e a dor que era dos dois. Todo mês ela liga prometendo que, no semestre seguinte, volta de vez, mas sempre renova o contrato de trabalho. Voltar carece de coragem, coisa que ela não tem.

Nesse tempo de espera, o Homem-Saudade tomou uma única atitude no seu viver provisório: mandou castrar todos os gatos e os cachorros da casa. De uma forma ou de outra, o futuro será diferente e, quem sabe, mais leve.