Além mar

 

Gente, é com muita alegria que compartilho com vocês uma boa novidade: o lançamento no último sábado, 30 de junho, em Lisboa, da antologia Corda Bamba, pela Pastelaria StudiosEditora, que reúne autores portugueses, brasileiros e de
alguns países latinoamericanos. Nele participo com o conto “Emoções Puídas”, aqui na integra. É o universo de Nanete seguindo além-mar. Estou muito feliz.

Emoções puídas

A vida corre lá fora, mas dentro daquele Homem-Saudade o tempo praticamente parou. A casa é um caos de embalagens de comida delivery abandonadas pelos cantos, pilha de louça na pia, roupas há muito aguardando serem lavadas, as paredes sujas e descascadas.

Poucos móveis restaram por ali, a maioria foi aos poucos sendo destruída pelos habitantes de quatro patas. A maior diversão de Groucho é roer pés de sofá e todas as madeiras à vista até que desapareçam totalmente. Já Blanca assumiu a velha poltrona como território seu depois de criar um ninho dentro da espuma com as unhas afiadas de felina. Scooby, o maior de todos sente-se o rei do pedaço, ameaça a todos com seu latido selvagem, e larga por todo lado pêlos que se misturam aos do Capitão, da Palito e do Bolão formando bolas enoveladas espalhadas pelo espaço que, um dia, foi confortável.

Ceder é o verbo preferido do Homem-Saudade. Foi assim quando Ninica resolveu que seu lugar era o velho monitor, e ele então teve que aprender a trabalhar com o “S” do rabo dela decorando a tela. Com o tempo, o velho monitor de tubo foi aposentado e empurrado para o fundo da mesa entulhada de coisas, sendo substituído por uma tela fina e fria. Desde então, a gata passa os dias na escrivaninha e, quando quer calor, ela se aninha no ombro miúdo do seu dono que, por conta disso, teve que aprender a digitar com uma mão só. A outra fica ocupada em ajudar a bichana nesse precário equilíbrio.

Luther é especialista em vinil, e desenvolveu sofisticada técnica de reduzir a cacos exemplares raros da antiga coleção do seu dono. Não todos, é claro, apenas aqueles que ele mais gostava de possuir. E de ouvir, quando ele ainda se permitia esse luxo. Faz tanto tempo que ele esqueceu-se de si, que já não liga mais para perdas. Deixou de sentir o nauseante cheiro de excremento animal que domina o seu lar, preferindo recordar-se do suave perfume do bebê que, anos antes, e por um tempo tão curto alegrou aquele espaço, até um dia dormir para nunca mais despertar.

Fora os bichos, o trabalho insano e solitário como tradutor naquelas teclas, uns poucos amigos que vê raramente, e o conhaque, companheiro habitual, a leitura é seu passatempo mais querido e constante. Por isso guarda os livros dentro do único armário que restou mais ou menos inteiro no imóvel.

É quando ele se aninha na cama com um volume na mão, cercado da dezena de animais, que ele pode escapar para outros mundos. Só assim ele consegue esquecer por instantes daquela que, para suportar a perda precoce daquele nenê tão esperado, começou a pegar animais abandonados pelas ruas acreditando que, assim, a sua dor ficaria mais leve. Não ficou. Um dia ela fez a mala para temporada de trabalho no exterior e nunca mais voltou, deixando com o marido os bichos que eram dela e a dor que era dos dois. Todo mês ela liga prometendo que, no semestre seguinte, volta de vez, mas sempre renova o contrato de trabalho. Voltar carece de coragem, coisa que ela não tem.

Nesse tempo de espera, o Homem-Saudade tomou uma única atitude no seu viver provisório: mandou castrar todos os gatos e os cachorros da casa. De uma forma ou de outra, o futuro será diferente e, quem sabe, mais leve.

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4 respostas em “Além mar

    • Vladimir querido, acho que também fiquei sem nenhuma depois de escrever este conto. Levei um tempo para me refazer. Beijão e obrigada pela visita.

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