Erotismo no novo-velho mundo

O erótico é o domínio da sedução, do imaginário. O pornográfico, o domínio da excitação, dos instintos. No Brasil, o desejo e o prazer ainda são muito relacionados com a transgressão e temos pouca literatura boa nesse gênero. Talvez por isso eu goste tanto das autoras portuguesas que se aventuram nesta área. Em seus textos, o desejo surge quase sempre como um sentimento inadequado, como que a exigir uma certa ousadia para que ele seja vivenciado.

Nasceu e vive em Lisboa Maria Teresa Horta, uma das minhas autoras preferidas. E dela, cito aqui as últimas linhas de um conto (Mônica) que considero incrivelmente sensual :

…Os lençóis enrodilhados ficavam no chão quando saíam para o corredor sujo e escuro, a cheirar a gordura fria, entranhada, de cozinha mal lavada. Mas os dois sentiam somente o odor a orgasmo que levavam na pele, enquanto a contragosto desciam as escadas, tropeçando na boca um do outro.”

(*) A pintura é da americana Georgia O’Keefe (1887-1986), mestre na arte do erotismo.

O iogurte

Arrastando o corpanzil na tarefa diária de supervisionar a empregada, Irene tentou parecer natural, mas com aquela sobrancelha levantada e o olhar superior, perguntou a das Dores por acaso você viu onde foi parar aquele iogurte de morango que comprei semana passada? Sei não dona Irene, não vi ele não.

Justiça era o lema de Irene. Nunca gostou de acusar sem ter certeza, mas lembrava que encomendou 12 copinhos ao delivery do supermercado, três de cada sabor: morango, pêssego e ameixa, os dois primeiros os preferidos de Juninho, o neto, e os últimos dela própria, porque faziam andar bem seu intestino preguiçoso. Enquanto revolvia a mente para descobrir se, de fato, o menino havia consumido todos, Irene deixava no ar a desconfiança enquanto pensava é preciso sempre estar de olhos abertos porque, se a gente bobear, essa gente nos leva tudo.

Bem, tudo é maneira de falar, porque levar tudo daquela família seria obra difícil, tantos eram os bens e o conforto que o seu Farah, dono de um comércio atacadista de grãos, proporcionava não só à mulher como aos agregados: filha, genro, netinho e ainda mais recentemente a sogra. E o comando de Irene era no estilo senzala, não desgrudava os olhos do material de limpeza, da despensa e da geladeira, nada escapava ao seu controle. Contava até o número de gotas de detergente que a empregava pingava na bucha para lavar a louça. É preciso economizar, repetia a todo momento na sua voz gutural que sobressaía por entre a trilha sonora que fazia ao se mover, balançando as várias correntes pesadas de ouro que trazia junto ao pulso e o colo. Seu xodó eram as tapeçarias que ela fazia das Dores limpar toda semana com pano levemente embebido em água e vinagre. Nem pense pedir esses produtos caros de limpeza, o vinagre é melhor que todos, dizia.

Enquanto Irene esparramava o imenso quadril no sofá da sala esperando o chá da tarde, das Dores se esforçava na cozinha para não esquecer nenhum item e aborrecer ainda mais a patroa: biscoitos amanteigados, bolacha recoberta de chocolate, petit-fours de aliche e as rodelas de limão que ela adorava pingar na bebida. Naquele dia especialmente, desde cedo a empregada estava com dificuldades em se concentrar, preocupada que estava com Nereu, seu caçula que nasceu diferente. Fazia algum tempo que ele vinha tendo convulsões a toda hora, mesmo tomando aqueles remédios que o médico prescreveu. Bem que ele alertou que o estado do menino iria piorar a cada dia, não havia nada que ela pudesse fazer para evitar.

Desde que veio ao mundo, esse menino só sofre, pensava ela, condoída, contando as horas para poder dar uma passada no hospital e visitar o caçula, antes de voltar ao quarto e cozinha nos cafundós, a quase três horas de condução do emprego. Foi ele nascer que o Antonio se foi, aquele desgraçado que só servia pra beber e me embuchar. Deve ter se assustado com aquele bichinho feio que só chorava e nem tinha força pra mamar. Sobrou pra mim me virar para criar os cinco mais esse pequeno sempre doentinho que toda vida precisou mais do meu cuidado.

Nereu já estava com 6 anos mas ainda não andava, não falava, só babava e emitia sons estranhos. Chamava a atenção na rua, no ônibus que tomavam juntos até o ambulatório do SUS todos os meses, isso quando não precisava ser levado às pressas ao pronto-socorro. A coluna de das Dores piorava com o esforço de carregar o menino nos braços. E o salário cada vez menor, sempre com essas horas descontadas. E não adiantava explicar que o motivo era de doença. Dona Irene nunca quis saber de problemas, já bastavam os dela, costumava dizer, cortando qualquer tentativa de das Dores pedir algo ou algum aumento.

Mas o menino vinha piorando, nem mais a papinha de farinha de milho com coentro, o jantar de toda noite da família ele conseguia engolir. Das Dores pensou em lhe dar algo diferente para comer, um agrado, algo que fizesse aquele anjinho mais feliz, nem que por alguns momentos. E a oportunidade surgiu na tarde passada, quando o Juninho, moleque gordo como a avó e mimado como a mãe, abriu o iogurte de morango com os dentes mesmo, mas tomou apenas dois goles, largando a embalagem sobre a mesa da cozinha assim que um amiguinho veio chamá-lo no portão.

Era a chance, e das Dores nem pensou duas vezes. Pegou o copinho semiaberto, escondeu-o  no bolso do avental e, assim que pôde, enfiou-o na sacola, torcendo para que dona Irene não tivesse tempo de revistar suas coisas na hora da saída.

Deu certo. Ela aproveitou o momento em que a patroa foi atender ao telefone, despediu-se de longe e correu pegar o ônibus, depois o trem, outro ônibus e ainda um pedação a pé. No caminho, cuidava o tempo todo para a sacola não virar e o copinho derramar. Chegando em casa, a primeira coisa que fez foi dar o iogurte de morango para Nereu, o seu anjinho marcado, com a ajuda de uma colher. O menino vibrava com aquele novo sabor, ria, batia as mãozinhas. Foi um momento de festa. Breve demais. Perto da meia-noite ele começou a se debater na cama, cólicas seguidas de uma diarréia tão forte que foi preciso chamar a ambulância. Dessa vez o garoto ficou internado e das Dores sequer pôde ficar com o filho. Mas até que o dia passou rápido.

Chegando ao hospital, a mãe foi informada: Nereu não resistira e falecera há poucos minutos.  No curto velório daquele cemitério do bairro estavam apenas das Dores e quatro de seus filhos. O maior que estava longe, na avó, nem foi porque não havia dinheiro para a passagem.

Mas das Dores era forte, uma sobrevivente, resistiria a mais essa. No dia seguinte ela foi trabalhar. Chegando lá, a primeira coisa que ouviu de dona Irene foi você não lembra onde colocou o tal iogurte de morango que desapareceu?