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O surdinho

 

O garoto custou a perceber que estava perdendo a audição. Agitado, falava alto, falava com as mãos, falava sozinho, às vezes se inflamava, fazia discursos, nem importava se o estavam ouvindo ou não. Só ia forçado para a escola, nunca gostou. Preferia usar o tempo para brincar, se juntar à molecada e descer a ladeira em folhas de bananeira depois da chuva no chão barrento do bairro e, às vezes, só parar lá embaixo numa cabeçada com algum poste ou muro incômodo. Corpo miúdo e leve, adorava dançar, a música mexia consigo, seduzido e sedutor, apenas se deixava levar.

Inteligente e criativo, desmontava, remontava, consertava tudo a seu-jeito-sem-jeito. O cachorro não devia entrar em casa? Ele providenciava uma portinha do mais feio patchwork que se pode imaginar, soma dos vários pedaços de madeira que achava pelo caminho presos por pregos muitas vezes já enferrujados que ele colecionava em vidrinhos. Bem que ele tentava se organizar, mas ali era tudo misturado: pregos, parafusos, porcas, elásticos, clips,  grampo de cabelo, folha de metal da tampa de leite em pó, fazia o diabo com esse arsenal.

“Feio mas funciona”, brincava defendendo sua frágil noção estética e isso se estendia às temerárias extensões elétricas que estendia ao longo da casa, verdadeiros atentados à segurança, “mas que facilitam a vida”, justificava-se sempre cheio de argumentos.

A vida era difícil, mas ele parecia pairar sobre os problemas. Era como se não existissem, tinha seu mundo particular. Ali, nada de mal o atingia, estava protegido em seu universo ingênuo, feito de poesia com rimas fáceis, quase infantis. Mas sempre sonoras, porque outro atributo seu era a alma de músico. Era incapaz de reconhecer uma nota que fosse, mas cantarolava suas musiquetas para quem se dispusesse a escutá-lo. Adorava se sentir compositor. E também apresentador, agitador cultural, alegrar a criançada com suas palhaçadas.

Vaidoso ao extremo, nem ligou quando precisou recorrer à leitura labial, porque só o que lhe importava era ouvir “parabéns”.  E ouviu muitos e tantos até que sua imensa quota de carência zerou.  Uma noite, quando tentavam convencê-lo a se deitar (ele, moleque levado sempre querendo ficar acordado até mais tarde) foi que ,de repente, se deu conta que nada mais restava para ele consertar, nem bailes para dançar, não tinha mais amigos para brincar, a velha ladeira fora asfaltada. Foi então que resolveu se mudar para a rua de cima.

(*) A tela é “Taller”, de Normal Rockwell.