Vergonha do outro

espelho-gato-leão

Tem vezes que a televisão se transforma no instrumento do demônio. Mas, calma, não pense aí que me filiei a alguma seita religiosa que condena qualquer forma de prazer. Pelo contrário, toda noite ligo o aparelho para saber das últimas notícias, acompanhar algum seriadinho leve e, sobretudo, filmes que me transportem para outros mundos, outras culturas e me ajudem a compreender toda a beleza da diversidade humana.

Mas foi justo esse lado demoníaco da TV que fez brotar em mim, hoje, a necessidade imperiosa de me pronunciar devido a um sentimento incômodo: a vergonha pelo outro. E foram dois artistas que me fizeram sentir assim.

Primeiro, a cantora Maria Rita. Não acompanho telenovelas, mas dia destes, quanto esperava começar o Jornal da Cultura (o único telejornal “pensante” no vídeo), passando pela Salve Jorge”, da Globo, fiquei literalmente chocada ao ouvir essa garota esforçando-se para imitar a mãe em Me Deixas Louca (do mexicano Armando Manzanero). Essa foi a última canção gravada por Elis Regina, em 1981 e, lançada no disco póstumo Trem Azul, de 1982, é uma das suas mais fortes interpretações.

O que me incomodou não foi Maria Rita gravar um disco em homenagem à mãe. O que doeu foi ela – milhas longe dos atributos vocais e de interpretação de Elis – se esforçar para imitá-la descaradamente na entonação, nos arranjos, nos vibratos. E pior, sem conseguir. Constrangedor! Até porque toda imitação só faz aumentar a saudade do original.

Eu que não tenho nada contra – e nem a favor – de Maria Rita, confesso, fiquei com vergonha por ela. E só posso lamentar que não haja alguém que a aconselhe a seguir o próprio caminho de acordo com suas qualidades e limitações ao invés de ficar eternamente tentando viver um espelho que é falso, clara imposição do marketing sem limites, nem ética. Triste. Mesmo que ganhando rios de dinheiro, ninguém merece se transformar em cover eterna da mãe. Tenho a esperança, contudo, que um dia ela reflita sobre a famosa frase de Platão: “Não há nada mais vergonhoso do que alguém ser honrado pela fama dos antepassados e não pelo merecimento próprio.” Sinceramente, torço por isso.

Ainda incomodada por essa questão musical, acordo hoje com uma notícia sobre o incorrigível apresentador José Luiz Datena que me arrepiou: é que ontem, esse useiro e vezeiro de métodos nada ortodóxicos de comunicação, desta vez se superou ao telefonar (durante o seu programa-banho-de-sangue-e-desgraça Brasil Urgente, da Band) para um rapaz que mantinha como refém a própria família dentro de casa, em Diadema, em São Paulo. Depois de conversar com o jornalista, o sequestrador identificado como Joel, libertou a mãe e a irmã – e se entregou à polícia. Para alívio de todos, porque a estratégia poderia ter-se transformado em tragédia.

E bem agora, enquanto escrevo esta crônica-desabafo, Datena recorre à imprensa dizendo-se arrependido do que fez. Como dizia a minha avó, “tudo conversa prá boi ouvir”. Mas onde a responsabilidade? Onde o senso crítico? Onde os limites para melhorar o Ibope?

Então, juntando esses dois temas (Maria Rita e Datena) pergunto a você leitor, quais os limites do marketing e do dinheiro e a sua fronteira com a responsabilidade e a ética? Sei que a obrigação do escritor é pensar, observar o mundo ao redor, refletir e traduzir em linguagem o que, para muitos, pode passar despercebido. Mas faço isso tanto, tanto que, confesso, tem horas – como esta que estou vivendo agora – que adoraria saber onde encontrar o botão de desligar.

Não encontrando esse tal botão mágico, busco lembrar da nossa saudosa baixinha (a autêntica, a inimitável) cantando com aquela voz única, possante, saída do ventre “…Sinto que teus braços se cruzaram em minhas costas/ Desaparecem as palavras/ Outros sons enchem o espaço/ Você me abraça, a noite passa/ E me deixas louca/ Loucaaaaaaa”.

(*) Crônica publicada no Jornal do Cambuci/Aclimação em 30/11/2012

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10 respostas em “Vergonha do outro

  1. Você deveria ter vergonha de escrever uma cronica tão ruim e ordinária sobre uma cantora tão talentosa,imagino que isto que você sentia enquanto escrevia barbaridades sobre a cantora Maria Rita é como dizem hoje em dia,RECALQUE.Você que se diz tão inteligente deve saber saber o significado dessa palavra…Eu espero que você não fique com raiva dessa crítica,ou melhor,espero que fique,pois assim você irá saber como as pessoas se sentem quando você escreve coisas tão ofensivas à elas.Quem você pensa que é pra julgar alguém?Se leu direito não te julguei em hipótese alguma.Maria Rita se quiser pode mudar o repertório dela se quiser,você quanto mais envelhece fica mais feia,nojenta e reclama cada vez mais da vida e das pessoas,mas ninguém sai por ai jogando isso na sua cara,pelo menos as músicas da Maria Rita tem conserto,já você,Nasce de novo querida…. Muitos beijos e abraços virtuais,por que se te encontrasse não teria coragem de encostar numa pessoa tão falsa e nojenta como você…..Pense bem nas coisas que escreve…

    • Não acho que escrevi barbaridades, apenas exerci meu direito de expressar minha opinião. Que pode ser diferente da sua, o que eu respeito. Obrigada pela leitura atenta e… viva a democracia!

  2. A senhora é insensível…Isto é apenas uma homenagem de mãe para filha….Como já fez o Diogo Nogueira,cantores talentosos que merecem aplausos….

    • Penso que é natural filho de artista se tornar artista também, assim como é normal um dia querer homenagear o progenitor. Mas se você ler o texto com atenção, verá que eu me referi à tentativa da Maria Rita sempre ficar forçando para “parecer com Elis” e não optar por seguir seu próprio caminho. De qualquer forma, concordando ou não, obrigada pela leitura atenta.

  3. Necessário!! Concordo plenamente com você, Nanete !!!

    Acho interessante que a sua crítica-reflexão provoque termos e opiniões que saem da crítica.

    Se eu digo que o “rei está nu”, eu que sou o pornográfico?

    Se expresso um ponto de vista (e este de Nanete é correto) eu que tenho trave nos olhos?.

    Se digo que ele rouba, eu sou o cagueta?

    Interessante…

    Nanete, encontrou a sua pegada!!! Parabéns!!!

    • Obrigada Plinio não só por ter aceito a minha proposta de reflexão, mas sobretudo por ter visto que por trás dessa crônica há uma voz literária. Como escritor (e talentoso) você consegue ver as várias camadas.

  4. NANETE, ACABO DE CONHECER O SEU BLOG E JÁ VIREI FÃ E LEITORA ASSÍDUA, POIS ADORO PESSOAS QUE PENSAM ASSIM COMO VC. ESTA CANTORA REALMENTE TENTA IMITAR A SUA SAUDOSA MÃE, MAS A ELIS FOI ÚNICA, ASSIM COMO TOM JOBIM, VINÍCIUS DE MORAIS, E TANTOS OUTROS QUE, SE FOSSE ELENCÁ-LOS, FICARIA HORAS ESCREVENDO. TAMBÉM NÃO GOSTEI DA INTERPRETAÇÃO DA MARIA RITA NESTA MÚSICA. ACHEI MEIO FORÇADA, E TANTAS OUTRAS EM QUE ELA TENTA IMITAR SUA MÃE. ENFIM O NOSSO PAÍS ESTÁ CADA DIA MAIS SEM CULTURA, O POVO ESTÁ EMBURRECENDO E COMO DIZ O MEU QUERIDO E MARAVILHOSO IVAN LINS, O NOSSO PAÍS ESTÁ CADA DIA MAIS MEDÍOCRE, INFELIZMENTE, POIS SE FÔSSEMOS UM PAÍS MAIS CULTO NÃO DEIXARÍAMOS OS POLÍTICOS BRASILEIROS FAZEREM O QUE ESTÃO FAZENDO COM O NOSSO POVO. BRASIL, PAÍS DO FUTEBOL, DO CARNAVAL E AGORA DAS COTAS. E VIVA A DEMOCRACIA. PARABÉNS PELOS TEXTOS. ADOREI!!!!! ABRAÇOS

  5. Olá, Suzete, seja bem-vinda! Como Caetano e Gil diziam em “Divino Maravilhoso”de 1968, “é preciso estar atento e forte”. Apareça sempre.

  6. Olá, Nanete!
    Só hoje li seu comentário e apesar de suas duras palavras, concordo integralmente com ele. Por ocasião do show de Maria Rita em “homenagem” à mãe, comentei no site do programa que ela precisava desse “exorcismo”, (afinal acho que, como eu, muitos fãs de Elis esperavam uma espécie de ressurreição…) mas que após isso deveria procurar seu rumo. Elis é única e talento não se transmite por DNA e nessa música, Me deixas louca, especificamente a tentativa de imitação é mesmo digna da vergonha alheia, como você ressaltou em seu comentário. Enfim, fiquei fã do seu blog.

    • Oi Sonia, você entendeu o meu ponto: homenagem é uma coisa, tentativa de imitação é outra coisa bem diferente… e discutível. Que bom que ganhei mais uma leitora, apareça sempre. Abração, querida.

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