Crônica para o ano-bebê

Menino - Plantando o futuro - Valdir Dias

Queria escrever uma crônica diferente para o ano que chega novinho, página em branco ainda a ser preenchida. É chegada a hora de arrumar a casa, jogar coisas fora, fazer listas de desejos, crescer, mudar. Por que afinal, como diz o humorista José Simão, “quem fica parado é poste”.

Já imaginou se a gente fosse sempre igual, nunca mudasse nada que chato que seria? Só Roberto Carlos é que se suporta com o mesmo penteado há quase 50 anos, concorda? Fora ele, todos procuramos acompanhar os tempos. Afinal, quem quer se sentir à margem do que acontece? Ninguém.

E nesta hora de projetar 2013, vale sempre lembrar aquela velha lei da física, segundo a qual toda ação gera uma reação. Sendo assim, é bom que as minhas atitudes daqui para frente sejam bem pensadas de modo a gerar reações positivas não só do meio-ambiente como de todos os que me cercam. Afinal, quem distribui afeto colhe afeto, quem distribui ira, violência ou descaso, colhe ira, violência e descaso.

Então, ao contrário de todo mundo, não vou fazer uma lista de desejos, mas sim de coisas que espero fazer ou modificar no ano ainda bebê. E ela será mais ou menos assim:

1)  Em vez de trocar o carro por um modelo mais novo ajudando a entupir o trânsito desta cidade já tão caótica, prometo usar mais as pernas, o transporte público ou uma bicicleta;

2)  Prometo também me tornar uma cidadã mais atuante, exigindo das autoridades e empresas um melhor tratamento em todas as esferas não só para mim como para todos. Se for preciso, mandarei cartas para os jornais, promoverei abaixo-assinados. Vou me recusar a ficar passiva e me conformar em ser mal-tratada.

3)  Menos presentes e mais atenção e carinho para as crianças. Então prometo entrar em 2013 “sob nova direção” reservando um tempo de dedicação exclusiva (nem que meia-hora apenas) para os filhotes todos os dias, incluindo um tempo maior para os sobrinhos. Eles certamente agradecerão muito por isso, agora e no futuro.

4)  Prometo cuidar melhor do corpinho, com atenção maior à alimentação (menos gorduras e industrializados/ mais hortaliças e frutas), e fazer alongamentos e caminhadas frequentes o que, segundo a medicina oriental, é ótimo para combater a angústia e clarear as ideias.

5)  Para o equilíbrio emocional, juro criar um momento diário de reflexão. Basta alguns minutos olhando para o céu, ou verde ou para mim mesma, revendo minhas atitudes, ou degustando uma maçã (o estômago, a garganta e as cordas vocais agradecerão). Garanto que com umas pausinhas dessas, meus dias serão mais leves, agradáveis e produtivos, e eu ficarei menos chata.

6)  O espírito se alimenta de arte e beleza. Então vou deixar de achar que a TV me fornece tudo o que eu preciso em termos de cultura, e partir para ver mais exposições, peças de teatro, shows, ouvir música boa, ler mais. Isso tudo só pode fazer de mim uma pessoa melhor.

7)  E juro reservar mais tempo aos amigos e pessoas que quero bem. Vale um e-mail ou telefonema só para saber de está tudo bem, uma visita, um alô, um café, um chopinho. Amizades precisam ser cuidadas para florescerem e depende de nós fazer com que esse elo delicado sobreviva ao tempo.

Poxa, são sete itens apenas. Nada muito difícil, concorda? E que tal se você, leitor, fizesse uma lista parecida? Para reforçar a minha (e quem sabe a sua) determinação em mudar as coisas que podemos, encerro esta crônica citando uma frase de uma goiana que sustentou a família fazendo doces para fora, e só em 1965, aos 75 anos de idade, teve o prazer de ter seu primeiro livro de poemas publicado. Seu nome: Cora Coralina.

 “Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar,  ir ou ficar,    desistir ou lutar;  porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais  importante é o decidir.”

Será que preciso mais para injetar ânimo em todos nós? De coração, um 2013 cheio de amor, saúde, decisões, realizações (e mudanças) para você.

(*) “Menino plantando o futuro”, obra do artista Waldir Dias.