Quem disse que cabelo não sente?

Dia destes li um texto de uma carioquinha de 22 anos cujo título é “Mc K-Bela”, que me emocionou bastante e que agora compartilho com você, leitor, de forma resumida.

 “[…] assim que chego, sempre causo risadas. Não é pela minha roupa nem por algo engraçado que esteja fazendo, é só surgir que o riso se manifesta espontaneamente. […] Bombril, Assolan, Biro Biro, Drogba do Chelsea e outros apelidos maldosos, já me renderam boas horas de choro […].

“Quando mocinha, comecei a passar tudo no cabelo: henê, pente quente, bobs. Com a modernidade, escova progressiva, chapinha, permanente afro, guanidina. Entre esses produtos, todos foram sessões de tortura estética. Pode ser que tenha ficado apresentável e deixado o cabelo sem volume durante algum tempo, mas eu me sentia feia e triste.

“Havia um sentimento de liberdade. O que eu fazia? Poesia! Esperar por um atendimento nos salões de beleza, sempre lotados, me obrigava a puxar uma folha de caderno, uma caneta azul e borrar a minha dor na folha em branco. Esmigalhar meu sofrimento por ter sido colocada a vida inteira como feia, como a menina do cabelo de Bombril.

“Aprendi a fazer poesia brincando de esvoaçar cabelos crespos e ousar penteados que nunca seriam bonitos na turma da Vila Iguaçuana. A necessidade de ser bonita e ter os meninos cheirosos do bairro […] era mais importante do que tudo.

“O episódio mais doloroso da minha vida foi no Natal de 2010, quando fui relaxar o cabelo no salão que propaga imagens de belos cabelos naturais. A vermelhidão do meu couro cabeludo estava sincronizada com a amargura de ser bonita dentro daqueles padrões para agradar a avó e aos colegas de classe.

“Saí de lá com uma lágrima seca de dor nos meus olhos castanhos, do lado esquerdo. Do lado direito, um brilho molhado de liberdade e certeza de que nunca mais voltaria naquela rede que assassinava meus fios crespos remetentes a minha linda e orgulhosa descendência africana.

“A ferida que dominava o território do meu crânio, permaneceu durante uns vinte dias, com soro, pomadas para queimadura e uma certeza: a poesia estética será dos meus descendentes nos próximos dias, até o fim da vida. […] Negra eu sempre fui, mas foi ali que me tornei, reconheci e me aceitei como mulher negra.”

Yasmin Thayná é a autora desse texto que foi publicado no livro “Flupp pensa — 43 novos autores”, coletânea de textos de novos escritores das periferias cariocas. E com suas palavras tão sinceras, com o seu amadurecer dolorido, essa garota me fez pensar em meu próprio caminho de autoaceitação.  Eu era baixinha, quando a onda era pernões e minissaia. Era muito branca, quando as bronzeadas botavam a banca. Tinha cabelão caindo em ondas, cinturinha, bunda e coxa grossa, quando se valorizavam as altas, magras e de fios escorridos. Mesmo fora de moda, sempre me virei, tive meu eleitorado, e muitas vezes me dei bem. Mas a verdade é que nasci fora de época. Uns vinte anos antes, arrasaria quarteirões.

Mas branca, classe média e com sangue europeu, mesmo fora dos padrões estéticos da minha geração, jamais precisei passar pela dura experiência de ser apontada como “aquela pretinha ali”, “cabelo ruim” ou “nega sarará” de forma pejorativa. Um privilégio de minha raça. Privilégio esse que às vezes me envergonha e me leva a pensar que ruim mesmo é quem vive de desclassificar.

Ah, o título acima veio de uma música feita em parceria por Jorge BenJor e Arnaldo Antunes. Se você clicar em http://letras.mus.br/arnaldo-antunes/91446/ , ler a letra e ouvir a música com atenção, compreenderá tudo o que isso significa.  E viva a diferença!

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