Batendo ponto

Batendo ponto na Livraria da Vila-12-abril 2014Quase um ano depois de lançado, o nosso Batendo ponto continua bombando e exposto em destaque na Livraria da Vila da Fradique ao lado do Nossos ossos, o excelente romance do Marcelino Freire

Batendo ponto, uma colherada de humor na hora do cafezinho (Editora Novo Século) é uma coletânea de mini e microcontos de ficção que se passam no universo corporativo, assinados por mim mais os mestres Nelson de Oliveira e Marcelino Freire à venda pelo site das maiores livrarias.

Aqui, três pitacos do livro:

“De que adiantava falar tantas línguas se não ouvia ninguém” (Marcelino Freire)

“Esperta, a treinee encurtou caminho ao abraçar o mundo com as pernas” (Nanete Neves)

Dez conselhos para manter os colegas longe de sua mesa de trabalho: 1) Grasne feito um ganso no cio toda vez que receber um e-mail./ 2) Sempre que falarem determinada palavra – sinergia ou reengenharia, por exemplo -, começa a sapatear./ 3) Jamais use pontuação em memorandos ou relatórios (…)”  (Nelson de Oliveira)

Realidade expandida

Minha Laura Fuentes participou de duas revistas Portal , e o seu conto “Aspieville” está entre os 21 selecionados que compõem a antologia “Todos os portais – realidades expandidas” que será lançada amanhã pela Terracota Editora, durante o III Fecon.

Aqui o convite. Apareçam. Vai ser bom demais ter vocês por perto.

O iluminado

Nunca ela esteve tão radiante. Mesmo com a cara lavada, os cabelos oleosos e o cansaço do parto, Priscila era só orgulho e vaidade. Dera à luz um garoto forte e agora mostrava o troféu cor de rosa aos visitantes. Pai não havia, pelo menos ela nunca revelara quem era. Quando a barriga começou a ser visível, ela apenas dizia que era uma produção independente. Morava com duas amigas mas mudou-se para um apartamento maior, segundo ela para poder cuidar melhor do nenê. Nunca explicou aquela licença inesperada de dois meses, nem o fato de ter voltado dela com a cabeça raspada. O bebê era lindo mas eu juro, quando o toquei no escuro, o brilho que vi em seus olhinhos era vermelho.

O iogurte

Arrastando o corpanzil na tarefa diária de supervisionar a empregada, Irene tentou parecer natural, mas com aquela sobrancelha levantada e o olhar superior, perguntou a das Dores por acaso você viu onde foi parar aquele iogurte de morango que comprei semana passada? Sei não dona Irene, não vi ele não.

Justiça era o lema de Irene. Nunca gostou de acusar sem ter certeza, mas lembrava que encomendou 12 copinhos ao delivery do supermercado, três de cada sabor: morango, pêssego e ameixa, os dois primeiros os preferidos de Juninho, o neto, e os últimos dela própria, porque faziam andar bem seu intestino preguiçoso. Enquanto revolvia a mente para descobrir se, de fato, o menino havia consumido todos, Irene deixava no ar a desconfiança enquanto pensava é preciso sempre estar de olhos abertos porque, se a gente bobear, essa gente nos leva tudo.

Bem, tudo é maneira de falar, porque levar tudo daquela família seria obra difícil, tantos eram os bens e o conforto que o seu Farah, dono de um comércio atacadista de grãos, proporcionava não só à mulher como aos agregados: filha, genro, netinho e ainda mais recentemente a sogra. E o comando de Irene era no estilo senzala, não desgrudava os olhos do material de limpeza, da despensa e da geladeira, nada escapava ao seu controle. Contava até o número de gotas de detergente que a empregava pingava na bucha para lavar a louça. É preciso economizar, repetia a todo momento na sua voz gutural que sobressaía por entre a trilha sonora que fazia ao se mover, balançando as várias correntes pesadas de ouro que trazia junto ao pulso e o colo. Seu xodó eram as tapeçarias que ela fazia das Dores limpar toda semana com pano levemente embebido em água e vinagre. Nem pense pedir esses produtos caros de limpeza, o vinagre é melhor que todos, dizia.

Enquanto Irene esparramava o imenso quadril no sofá da sala esperando o chá da tarde, das Dores se esforçava na cozinha para não esquecer nenhum item e aborrecer ainda mais a patroa: biscoitos amanteigados, bolacha recoberta de chocolate, petit-fours de aliche e as rodelas de limão que ela adorava pingar na bebida. Naquele dia especialmente, desde cedo a empregada estava com dificuldades em se concentrar, preocupada que estava com Nereu, seu caçula que nasceu diferente. Fazia algum tempo que ele vinha tendo convulsões a toda hora, mesmo tomando aqueles remédios que o médico prescreveu. Bem que ele alertou que o estado do menino iria piorar a cada dia, não havia nada que ela pudesse fazer para evitar.

Desde que veio ao mundo, esse menino só sofre, pensava ela, condoída, contando as horas para poder dar uma passada no hospital e visitar o caçula, antes de voltar ao quarto e cozinha nos cafundós, a quase três horas de condução do emprego. Foi ele nascer que o Antonio se foi, aquele desgraçado que só servia pra beber e me embuchar. Deve ter se assustado com aquele bichinho feio que só chorava e nem tinha força pra mamar. Sobrou pra mim me virar para criar os cinco mais esse pequeno sempre doentinho que toda vida precisou mais do meu cuidado.

Nereu já estava com 6 anos mas ainda não andava, não falava, só babava e emitia sons estranhos. Chamava a atenção na rua, no ônibus que tomavam juntos até o ambulatório do SUS todos os meses, isso quando não precisava ser levado às pressas ao pronto-socorro. A coluna de das Dores piorava com o esforço de carregar o menino nos braços. E o salário cada vez menor, sempre com essas horas descontadas. E não adiantava explicar que o motivo era de doença. Dona Irene nunca quis saber de problemas, já bastavam os dela, costumava dizer, cortando qualquer tentativa de das Dores pedir algo ou algum aumento.

Mas o menino vinha piorando, nem mais a papinha de farinha de milho com coentro, o jantar de toda noite da família ele conseguia engolir. Das Dores pensou em lhe dar algo diferente para comer, um agrado, algo que fizesse aquele anjinho mais feliz, nem que por alguns momentos. E a oportunidade surgiu na tarde passada, quando o Juninho, moleque gordo como a avó e mimado como a mãe, abriu o iogurte de morango com os dentes mesmo, mas tomou apenas dois goles, largando a embalagem sobre a mesa da cozinha assim que um amiguinho veio chamá-lo no portão.

Era a chance, e das Dores nem pensou duas vezes. Pegou o copinho semiaberto, escondeu-o  no bolso do avental e, assim que pôde, enfiou-o na sacola, torcendo para que dona Irene não tivesse tempo de revistar suas coisas na hora da saída.

Deu certo. Ela aproveitou o momento em que a patroa foi atender ao telefone, despediu-se de longe e correu pegar o ônibus, depois o trem, outro ônibus e ainda um pedação a pé. No caminho, cuidava o tempo todo para a sacola não virar e o copinho derramar. Chegando em casa, a primeira coisa que fez foi dar o iogurte de morango para Nereu, o seu anjinho marcado, com a ajuda de uma colher. O menino vibrava com aquele novo sabor, ria, batia as mãozinhas. Foi um momento de festa. Breve demais. Perto da meia-noite ele começou a se debater na cama, cólicas seguidas de uma diarréia tão forte que foi preciso chamar a ambulância. Dessa vez o garoto ficou internado e das Dores sequer pôde ficar com o filho. Mas até que o dia passou rápido.

Chegando ao hospital, a mãe foi informada: Nereu não resistira e falecera há poucos minutos.  No curto velório daquele cemitério do bairro estavam apenas das Dores e quatro de seus filhos. O maior que estava longe, na avó, nem foi porque não havia dinheiro para a passagem.

Mas das Dores era forte, uma sobrevivente, resistiria a mais essa. No dia seguinte ela foi trabalhar. Chegando lá, a primeira coisa que ouviu de dona Irene foi você não lembra onde colocou o tal iogurte de morango que desapareceu?

 

Além mar

 

Gente, é com muita alegria que compartilho com vocês uma boa novidade: o lançamento no último sábado, 30 de junho, em Lisboa, da antologia Corda Bamba, pela Pastelaria StudiosEditora, que reúne autores portugueses, brasileiros e de
alguns países latinoamericanos. Nele participo com o conto “Emoções Puídas”, aqui na integra. É o universo de Nanete seguindo além-mar. Estou muito feliz.

Emoções puídas

A vida corre lá fora, mas dentro daquele Homem-Saudade o tempo praticamente parou. A casa é um caos de embalagens de comida delivery abandonadas pelos cantos, pilha de louça na pia, roupas há muito aguardando serem lavadas, as paredes sujas e descascadas.

Poucos móveis restaram por ali, a maioria foi aos poucos sendo destruída pelos habitantes de quatro patas. A maior diversão de Groucho é roer pés de sofá e todas as madeiras à vista até que desapareçam totalmente. Já Blanca assumiu a velha poltrona como território seu depois de criar um ninho dentro da espuma com as unhas afiadas de felina. Scooby, o maior de todos sente-se o rei do pedaço, ameaça a todos com seu latido selvagem, e larga por todo lado pêlos que se misturam aos do Capitão, da Palito e do Bolão formando bolas enoveladas espalhadas pelo espaço que, um dia, foi confortável.

Ceder é o verbo preferido do Homem-Saudade. Foi assim quando Ninica resolveu que seu lugar era o velho monitor, e ele então teve que aprender a trabalhar com o “S” do rabo dela decorando a tela. Com o tempo, o velho monitor de tubo foi aposentado e empurrado para o fundo da mesa entulhada de coisas, sendo substituído por uma tela fina e fria. Desde então, a gata passa os dias na escrivaninha e, quando quer calor, ela se aninha no ombro miúdo do seu dono que, por conta disso, teve que aprender a digitar com uma mão só. A outra fica ocupada em ajudar a bichana nesse precário equilíbrio.

Luther é especialista em vinil, e desenvolveu sofisticada técnica de reduzir a cacos exemplares raros da antiga coleção do seu dono. Não todos, é claro, apenas aqueles que ele mais gostava de possuir. E de ouvir, quando ele ainda se permitia esse luxo. Faz tanto tempo que ele esqueceu-se de si, que já não liga mais para perdas. Deixou de sentir o nauseante cheiro de excremento animal que domina o seu lar, preferindo recordar-se do suave perfume do bebê que, anos antes, e por um tempo tão curto alegrou aquele espaço, até um dia dormir para nunca mais despertar.

Fora os bichos, o trabalho insano e solitário como tradutor naquelas teclas, uns poucos amigos que vê raramente, e o conhaque, companheiro habitual, a leitura é seu passatempo mais querido e constante. Por isso guarda os livros dentro do único armário que restou mais ou menos inteiro no imóvel.

É quando ele se aninha na cama com um volume na mão, cercado da dezena de animais, que ele pode escapar para outros mundos. Só assim ele consegue esquecer por instantes daquela que, para suportar a perda precoce daquele nenê tão esperado, começou a pegar animais abandonados pelas ruas acreditando que, assim, a sua dor ficaria mais leve. Não ficou. Um dia ela fez a mala para temporada de trabalho no exterior e nunca mais voltou, deixando com o marido os bichos que eram dela e a dor que era dos dois. Todo mês ela liga prometendo que, no semestre seguinte, volta de vez, mas sempre renova o contrato de trabalho. Voltar carece de coragem, coisa que ela não tem.

Nesse tempo de espera, o Homem-Saudade tomou uma única atitude no seu viver provisório: mandou castrar todos os gatos e os cachorros da casa. De uma forma ou de outra, o futuro será diferente e, quem sabe, mais leve.

Retrato falado

Os papéis amarelam-se, as lembranças ficam amassadas, puídas, pouco a pouco me apago nos retratos.  Onde foi parar todo aquele sentimento? Para onde foi aquela garota risonha de olhos vivos e ingenuidade tão genuína quanto improvável? Inviável. Era jovem demais para ser julgada, crescida demais para ser perdoada. E a vida não nos protege dos deslizes nem releva as esperanças.

Nem sei bem quando aconteceu. Num passo em falso despenquei. Mais dolorida a queda dos confiantes. Não contei com a idade e a chegada dos medos, da falta de força e do começo das desistências. Primeiro desisti da liberdade, depois dos sonhos e, por fim, desisti de mim.  Construí um personagem, esse sim plenamente aceito, conveniente e capaz de enfeitar qualquer ambiente, como um objeto de decoração, dentro do molde. Nem uma cor a mais, nem um som, um trejeito. Um ser que não destoa. No começo, ainda havia o sentimento do desconforto. Mas o tempo traz o hábito. Hoje, lá fora me sinto em perigo. Dentro, confortavelmente presa.  Na gaiola, meu canto é um pranto afinado como água corrente.

 

 

*”Venise celeste”, by Moebius, um dos pseudônimos do ilustrador francês Jean Giraud (1938/2012) que se dedicou aos quadrinhos e ao cinema.

Amputação

 

Com o tranco, a cabeça girou totalmente para trás como se não tivesse eixo, o corpo ameaçou despencar. Um dos braços caiu no chão com um estalo oco. A noite começava a abraçar a cidade, mas a claridade nonsense do branco rosado iluminando a cena bizarra chamou a atenção de Otavio, que acabara de estacionar naquela rua de muito trânsito mas poucos pedestres àquela hora.

O embate daqueles dois corpos durou um tempão e a cena, bastante sensual fez Otavio esquecer-se da pressa e do compromisso e permanecer sentado ao volante para apreciar a cena. Ele, tão acostumado a consertar ossos e esqueletos, ortopedista que era, encantou-se com essa outra forma de lidar com o corpo humano. A balconista de pernas tão longas quanto o manequim sofria para mudar o figurino e deixar a vitrine pronta  para o dia seguinte. Era excitante ver a garota magra roçando as ancas com a boneca angulosa na tentativa de recolocar o braço caído, abrir um zíper, puxar as mangas, tirar-lhe o vestido. Agora totalmente nu, ela começou a cobri-lo outra vez. Ajeitava a nova roupa, cobria um seio, subia a barra expondo as coxas, alisava a cintura. Parecia quase um balé, mais um carinho meio desajeitado. Demorou, mas logo o manequim estava totalmente renovado, membros e cabeça no lugar, quadris tortos e empinados, numa daquelas estranhas posições de vitrine. Esquecido do tempo, meio excitado e divagante, ele viu a garota satisfeita com o resultado, abaixar-se junto à parede para apagar o refletor que jogava a luz rosa de baixo para cima e carregar as peças que substituíra para dentro.

A rua ficou ainda mais escura quando a vitrine se apagou, mas uma luz tênue vinda lá do fundo permitia que um observador mais atento acompanhasse vagamente o que acontecia no interior da boutique. Concentrando o foco, segundos depois Otavio viu a vendedora sair do provador vestindo a roupa que tirara do manequim e, com jeito feliz, dar pulinhos de alegria admirando-se de longe no espelho. Mesmo naquela semidistância ele estava certo: o vestido de um azul royal intenso caía muito melhor na garota pernuda do que na boneca sem vida. Ela desfilava para alguém. Logo o médico constatou que era para a gerente da loja, mulher de tipo encorpado e seios fartos que parecia elogiar o conjunto da obra, alisando o modelo e a modelo, e esta demonstrava gostar dos afagos. Segundos depois ela colava seu corpanzil ao da jovem num abraço apertado, iniciando um erótico jogo de ancas, um abaixa-levanta meio desastrado que as fez caminhar enlaçadas e trôpegas até a lateral da loja, numa área menos iluminada.

Agoniado, Otavio saiu do carro, e sem se preocupar se estava sendo visto, aproximou-se da vitrine e, riscando o olhar pela penumbra, localizou a garota apoiada no balcão e a gerente com o rosto enfiado entre as suas pernas. A jovem revirava a cabeça, e de vez em quando olhava para ver o que a outra estava fazendo, e parecia delirar. Quando parecia que havia terminado, elas voltaram a se abraçar, e a garota começou a retribuir toda a sequencia.

Aquilo pareceu a ele durar uma eternidade. De repente Otavio sentiu o celular vibrar em seu bolso.

– Oi, mano, já pegou a Fernanda? Tá todo mundo aqui esperando vocês.

– Não peguei não – respondeu o médico enquanto tentava reordenar os pensamentos.

– O que foi, está preso no trânsito?

– Não, tá tudo livre, em poucos minutos eu chego. Mas a Fernanda teve um contratempo e não poderá ir.

– Puts, melou a surpresa então. Você vai ter que adiar o pedido…

– É, melou.