A nenê do desamor

Love_Child_poster Zapeando os canais a cabo dia destes, assisti ao documentário “Love Child” (2014, EUA -Coreia do Sul, dirigido por Valerie Veatch). Ele traz a triste história de um casal viciado em jogos virtuais que, em 2010, passou 12 horas em uma lanhouse deixando sua primeira bebê de três meses sozinha em casa. E ela morreu de fome.

O caso foi a julgamento e, como o casal era pobre, foi designado um defensor público. Sem saída, em meio ao clamor público, ele arriscou-se a alegar insanidade. Com isso, esse advogado não apenas tornou mais branda a pena imposta a eles, como levou o mundo todo a refletir sobre essa nova doença social.

E o mais estarrecedor: enquanto a filha morria, eles “cuidavam” de outra criança, um avatar que criaram num jogo de RPG chamado Prius, que envolve o uso de armas e habilidades para a sobrevivência. Ambos, marido e mulher, estavam desempregados e, como muita gente, há algum tempo vinham vivendo num estado de espírito quase catatônico, ganhando algum dinheiro vendendo itens que criavam para essa realidade paralela.

Passatempo? Negócio? Esporte? Ou apenas uma febre decorrente do grande incentivo do governo da Coreia do Sul, naquela época perto de se tornar líder mundial em TI (Tecnologia da Informação)?

O documentário é conduzido pelo depoimento de policiais, investigadores, juristas e jornalistas envolvidos no processo que envolveu a discussão de questões como negligência, responsabilidade, intenção ou não de matar, dependência emocional e a responsabilidade do estado em incentivar jogos on line. Eles, inclusive, estavam tão fissurados nos jogos que nem cuidavam direito de si próprios, não se alimentavam direito, não dormiam.

O julgamento durou dois meses, atraindo a atenção mundial para a questão. Ao final, o pai foi sentenciado a um ano de prisão, a mãe – muito jovem – não foi presa. Durante o processo, ela engravidou novamente. Desta vez, ambos prometeram nunca mais jogar e se mostraram dispostos, enfim, a aprender como lidar corretamente de uma criança, porque aquela primeira gestação foi um acidente em meio ao caos em que estavam vivendo.

O Prius foi tirado do ar em 2013 depois de seus participantes terem atingido o nível 91 de vida (91!). Mas outros jogos continuam bombando não só na Coreia como mundo afora.

O que é mais chocante nessa história tristemente real é que a nenê chamava-se Sarang, que significa “amor” em coreano. Mas em sua curta existência, ela não recebeu isso dos seus pais perturbados pelas contingências. Ao final, o documentário joga na nossa cara a frase “Como um peixe sabe que está na água?”.

Quem disse que cabelo não sente?

Dia destes li um texto de uma carioquinha de 22 anos cujo título é “Mc K-Bela”, que me emocionou bastante e que agora compartilho com você, leitor, de forma resumida.

 “[…] assim que chego, sempre causo risadas. Não é pela minha roupa nem por algo engraçado que esteja fazendo, é só surgir que o riso se manifesta espontaneamente. […] Bombril, Assolan, Biro Biro, Drogba do Chelsea e outros apelidos maldosos, já me renderam boas horas de choro […].

“Quando mocinha, comecei a passar tudo no cabelo: henê, pente quente, bobs. Com a modernidade, escova progressiva, chapinha, permanente afro, guanidina. Entre esses produtos, todos foram sessões de tortura estética. Pode ser que tenha ficado apresentável e deixado o cabelo sem volume durante algum tempo, mas eu me sentia feia e triste.

“Havia um sentimento de liberdade. O que eu fazia? Poesia! Esperar por um atendimento nos salões de beleza, sempre lotados, me obrigava a puxar uma folha de caderno, uma caneta azul e borrar a minha dor na folha em branco. Esmigalhar meu sofrimento por ter sido colocada a vida inteira como feia, como a menina do cabelo de Bombril.

“Aprendi a fazer poesia brincando de esvoaçar cabelos crespos e ousar penteados que nunca seriam bonitos na turma da Vila Iguaçuana. A necessidade de ser bonita e ter os meninos cheirosos do bairro […] era mais importante do que tudo.

“O episódio mais doloroso da minha vida foi no Natal de 2010, quando fui relaxar o cabelo no salão que propaga imagens de belos cabelos naturais. A vermelhidão do meu couro cabeludo estava sincronizada com a amargura de ser bonita dentro daqueles padrões para agradar a avó e aos colegas de classe.

“Saí de lá com uma lágrima seca de dor nos meus olhos castanhos, do lado esquerdo. Do lado direito, um brilho molhado de liberdade e certeza de que nunca mais voltaria naquela rede que assassinava meus fios crespos remetentes a minha linda e orgulhosa descendência africana.

“A ferida que dominava o território do meu crânio, permaneceu durante uns vinte dias, com soro, pomadas para queimadura e uma certeza: a poesia estética será dos meus descendentes nos próximos dias, até o fim da vida. […] Negra eu sempre fui, mas foi ali que me tornei, reconheci e me aceitei como mulher negra.”

Yasmin Thayná é a autora desse texto que foi publicado no livro “Flupp pensa — 43 novos autores”, coletânea de textos de novos escritores das periferias cariocas. E com suas palavras tão sinceras, com o seu amadurecer dolorido, essa garota me fez pensar em meu próprio caminho de autoaceitação.  Eu era baixinha, quando a onda era pernões e minissaia. Era muito branca, quando as bronzeadas botavam a banca. Tinha cabelão caindo em ondas, cinturinha, bunda e coxa grossa, quando se valorizavam as altas, magras e de fios escorridos. Mesmo fora de moda, sempre me virei, tive meu eleitorado, e muitas vezes me dei bem. Mas a verdade é que nasci fora de época. Uns vinte anos antes, arrasaria quarteirões.

Mas branca, classe média e com sangue europeu, mesmo fora dos padrões estéticos da minha geração, jamais precisei passar pela dura experiência de ser apontada como “aquela pretinha ali”, “cabelo ruim” ou “nega sarará” de forma pejorativa. Um privilégio de minha raça. Privilégio esse que às vezes me envergonha e me leva a pensar que ruim mesmo é quem vive de desclassificar.

Ah, o título acima veio de uma música feita em parceria por Jorge BenJor e Arnaldo Antunes. Se você clicar em http://letras.mus.br/arnaldo-antunes/91446/ , ler a letra e ouvir a música com atenção, compreenderá tudo o que isso significa.  E viva a diferença!

A chama emprestada

Um dia de cada vez

A vida é uma chama provisória. Uns simplesmente a deixam queimar tranquilamente até se extinguir: um viver sem ousadias ou grandes pulos, mas também sem sobressaltos. Outros têm tantos projetos e sonhos que a assopram buscando aumentar a energia de cada dia. Existem os que mantém a chama encarnada, sempre cuidando de deixar uma reserva para o amanhã. E aqueles que consomem tudo sem se preocupar com o futuro. Mas não importa quando, nem como a deixamos entrar, a idade chega. Velhice é ir se despedindo das coisas, aos poucos. Por que não tem jeito, ser velho é todos os dias. Então, meu bem, melhor é se conformar que o tempo não corre a nosso favor. Parece sempre um rio voltado pro lado de lá. Mas sempre em movimento, é isso o que importa. Um dia de cada vez, aproveitando-se o máximo cada minuto emprestado do infinito.

Crônica para o ano-bebê

Menino - Plantando o futuro - Valdir Dias

Queria escrever uma crônica diferente para o ano que chega novinho, página em branco ainda a ser preenchida. É chegada a hora de arrumar a casa, jogar coisas fora, fazer listas de desejos, crescer, mudar. Por que afinal, como diz o humorista José Simão, “quem fica parado é poste”.

Já imaginou se a gente fosse sempre igual, nunca mudasse nada que chato que seria? Só Roberto Carlos é que se suporta com o mesmo penteado há quase 50 anos, concorda? Fora ele, todos procuramos acompanhar os tempos. Afinal, quem quer se sentir à margem do que acontece? Ninguém.

E nesta hora de projetar 2013, vale sempre lembrar aquela velha lei da física, segundo a qual toda ação gera uma reação. Sendo assim, é bom que as minhas atitudes daqui para frente sejam bem pensadas de modo a gerar reações positivas não só do meio-ambiente como de todos os que me cercam. Afinal, quem distribui afeto colhe afeto, quem distribui ira, violência ou descaso, colhe ira, violência e descaso.

Então, ao contrário de todo mundo, não vou fazer uma lista de desejos, mas sim de coisas que espero fazer ou modificar no ano ainda bebê. E ela será mais ou menos assim:

1)  Em vez de trocar o carro por um modelo mais novo ajudando a entupir o trânsito desta cidade já tão caótica, prometo usar mais as pernas, o transporte público ou uma bicicleta;

2)  Prometo também me tornar uma cidadã mais atuante, exigindo das autoridades e empresas um melhor tratamento em todas as esferas não só para mim como para todos. Se for preciso, mandarei cartas para os jornais, promoverei abaixo-assinados. Vou me recusar a ficar passiva e me conformar em ser mal-tratada.

3)  Menos presentes e mais atenção e carinho para as crianças. Então prometo entrar em 2013 “sob nova direção” reservando um tempo de dedicação exclusiva (nem que meia-hora apenas) para os filhotes todos os dias, incluindo um tempo maior para os sobrinhos. Eles certamente agradecerão muito por isso, agora e no futuro.

4)  Prometo cuidar melhor do corpinho, com atenção maior à alimentação (menos gorduras e industrializados/ mais hortaliças e frutas), e fazer alongamentos e caminhadas frequentes o que, segundo a medicina oriental, é ótimo para combater a angústia e clarear as ideias.

5)  Para o equilíbrio emocional, juro criar um momento diário de reflexão. Basta alguns minutos olhando para o céu, ou verde ou para mim mesma, revendo minhas atitudes, ou degustando uma maçã (o estômago, a garganta e as cordas vocais agradecerão). Garanto que com umas pausinhas dessas, meus dias serão mais leves, agradáveis e produtivos, e eu ficarei menos chata.

6)  O espírito se alimenta de arte e beleza. Então vou deixar de achar que a TV me fornece tudo o que eu preciso em termos de cultura, e partir para ver mais exposições, peças de teatro, shows, ouvir música boa, ler mais. Isso tudo só pode fazer de mim uma pessoa melhor.

7)  E juro reservar mais tempo aos amigos e pessoas que quero bem. Vale um e-mail ou telefonema só para saber de está tudo bem, uma visita, um alô, um café, um chopinho. Amizades precisam ser cuidadas para florescerem e depende de nós fazer com que esse elo delicado sobreviva ao tempo.

Poxa, são sete itens apenas. Nada muito difícil, concorda? E que tal se você, leitor, fizesse uma lista parecida? Para reforçar a minha (e quem sabe a sua) determinação em mudar as coisas que podemos, encerro esta crônica citando uma frase de uma goiana que sustentou a família fazendo doces para fora, e só em 1965, aos 75 anos de idade, teve o prazer de ter seu primeiro livro de poemas publicado. Seu nome: Cora Coralina.

 “Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar,  ir ou ficar,    desistir ou lutar;  porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais  importante é o decidir.”

Será que preciso mais para injetar ânimo em todos nós? De coração, um 2013 cheio de amor, saúde, decisões, realizações (e mudanças) para você.

(*) “Menino plantando o futuro”, obra do artista Waldir Dias.

Vergonha do outro

espelho-gato-leão

Tem vezes que a televisão se transforma no instrumento do demônio. Mas, calma, não pense aí que me filiei a alguma seita religiosa que condena qualquer forma de prazer. Pelo contrário, toda noite ligo o aparelho para saber das últimas notícias, acompanhar algum seriadinho leve e, sobretudo, filmes que me transportem para outros mundos, outras culturas e me ajudem a compreender toda a beleza da diversidade humana.

Mas foi justo esse lado demoníaco da TV que fez brotar em mim, hoje, a necessidade imperiosa de me pronunciar devido a um sentimento incômodo: a vergonha pelo outro. E foram dois artistas que me fizeram sentir assim.

Primeiro, a cantora Maria Rita. Não acompanho telenovelas, mas dia destes, quanto esperava começar o Jornal da Cultura (o único telejornal “pensante” no vídeo), passando pela Salve Jorge”, da Globo, fiquei literalmente chocada ao ouvir essa garota esforçando-se para imitar a mãe em Me Deixas Louca (do mexicano Armando Manzanero). Essa foi a última canção gravada por Elis Regina, em 1981 e, lançada no disco póstumo Trem Azul, de 1982, é uma das suas mais fortes interpretações.

O que me incomodou não foi Maria Rita gravar um disco em homenagem à mãe. O que doeu foi ela – milhas longe dos atributos vocais e de interpretação de Elis – se esforçar para imitá-la descaradamente na entonação, nos arranjos, nos vibratos. E pior, sem conseguir. Constrangedor! Até porque toda imitação só faz aumentar a saudade do original.

Eu que não tenho nada contra – e nem a favor – de Maria Rita, confesso, fiquei com vergonha por ela. E só posso lamentar que não haja alguém que a aconselhe a seguir o próprio caminho de acordo com suas qualidades e limitações ao invés de ficar eternamente tentando viver um espelho que é falso, clara imposição do marketing sem limites, nem ética. Triste. Mesmo que ganhando rios de dinheiro, ninguém merece se transformar em cover eterna da mãe. Tenho a esperança, contudo, que um dia ela reflita sobre a famosa frase de Platão: “Não há nada mais vergonhoso do que alguém ser honrado pela fama dos antepassados e não pelo merecimento próprio.” Sinceramente, torço por isso.

Ainda incomodada por essa questão musical, acordo hoje com uma notícia sobre o incorrigível apresentador José Luiz Datena que me arrepiou: é que ontem, esse useiro e vezeiro de métodos nada ortodóxicos de comunicação, desta vez se superou ao telefonar (durante o seu programa-banho-de-sangue-e-desgraça Brasil Urgente, da Band) para um rapaz que mantinha como refém a própria família dentro de casa, em Diadema, em São Paulo. Depois de conversar com o jornalista, o sequestrador identificado como Joel, libertou a mãe e a irmã – e se entregou à polícia. Para alívio de todos, porque a estratégia poderia ter-se transformado em tragédia.

E bem agora, enquanto escrevo esta crônica-desabafo, Datena recorre à imprensa dizendo-se arrependido do que fez. Como dizia a minha avó, “tudo conversa prá boi ouvir”. Mas onde a responsabilidade? Onde o senso crítico? Onde os limites para melhorar o Ibope?

Então, juntando esses dois temas (Maria Rita e Datena) pergunto a você leitor, quais os limites do marketing e do dinheiro e a sua fronteira com a responsabilidade e a ética? Sei que a obrigação do escritor é pensar, observar o mundo ao redor, refletir e traduzir em linguagem o que, para muitos, pode passar despercebido. Mas faço isso tanto, tanto que, confesso, tem horas – como esta que estou vivendo agora – que adoraria saber onde encontrar o botão de desligar.

Não encontrando esse tal botão mágico, busco lembrar da nossa saudosa baixinha (a autêntica, a inimitável) cantando com aquela voz única, possante, saída do ventre “…Sinto que teus braços se cruzaram em minhas costas/ Desaparecem as palavras/ Outros sons enchem o espaço/ Você me abraça, a noite passa/ E me deixas louca/ Loucaaaaaaa”.

(*) Crônica publicada no Jornal do Cambuci/Aclimação em 30/11/2012