As mulheres, sopro de renovação na literatura de agora

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Escrevo, logo resisto

 

Todo fim de ano fazemos nossas promessas e estabelecemos metas. E nesta passagem para 2018, prometi para mim que passaria a comentar todos os livros de mulheres que lesse. Nada contra os nossos colegas. Apenas que, como um ser cada vez mais  gregário, resolvi fazer parte do Mulherio das Letras, que luta por maior visibilidade das mulheres na mídia (o que inclui sermos mais editadas, e termos nossos livros divulgados na mídia e expostos nas livrarias com empenho semelhante).

No último semestre de 2017 li vários, por essa razão os comentários serão reduzidos em tamanho, mas condensam toda a minha apreciação.

Há algum tempo que acompanho os textos publicados em antologias por Izilda Bichara, sobretudo as produzidas pelo coletivo literário Martelinho de Ouro. Quando se julgou madura para encarar voos mais altos, ela lançou a novela “Térreo” (Casa Impressora de Almeria, 2012), seu primeiro trabalho solo, já mostrando um texto fluido e arejado numa criação levemente distópica.  Sua publicação seguinte foi “Desculpa o atraso” (@Link Editora, 2017), de contos curtos, incomodativos, impactantes e com a levada poética que a caracteriza. A começar do conto que dá nome ao livro, sobre uma empregada descul-pando-se humilde e singelamente com a patroa, e que nos faz refletir sobre como trata- mos as pessoas que nos prestam serviços. E se a realidade é tão dura, Izilda recorre ao fantástico em alguns contos que nos fazem pensar – e às vezes termos vergonha – de como nos sujeitamos ser tratadas por maridos, chefes e o mundo em geral.

Paula Bayer também integra o Martelinho de Ouro e é o que pode se chamar de uma escritora fértil. Já tem vários livros publicados, entre eles o “Viagem sentimental ao Japão” (Apicuri, 2013) em que se revela exímia criadora de personagens esquisitos. A sua Anette, funcionária de uma agência de turismo é uma garota deliciosa, irônica, imprevi- sível e tão bem-construída, que passou a integrar o meu seletíssimo time de personagens inesquecíveis. Um exemplo do nonsense da personagem: “…. (Anete) não fuma e coleciona fósforos encaixotados.” Seu segundo romance, “Feliz aniversário, Silvia” (Patuá, 2017), lançado como e-book antes de ir para o papel, igualmente traz duas personagens fora da caixinha. Silvia e Sabina são amigas que escrevem. Sabina assina com pseudônimo e faz muito sucesso. Já Silvia é gorda, e empenha-se em um diário inédito de dietas que sonha em transformar em livro. E de novo Paula acerta no delicado equilibro de estranheza, humor e dor. No fundo, suas personagens procuram brechas para construir sua identi- dade e se autoaceitarem, em um mundo onde as regras ainda são dadas pelos homens.

Adrienne Myrtes está na estrada há mais tempo, e sempre nos surpreendendo com seus livros. Em “Eis o mundo de fora” (Ateliê Editorial, 2011) ela afia a sua prosa invariavel- mente poética na voz de dois narradores, os amigos Irene e Luiz. É de Luiz o trecho “Pas- sei a mão esquerda pelo rosto dela livrando os cabelos dos olhos, depois levei à boca a mes- ma mão. Molhada. O sal da lágrima de Irene preencheu minha saliva: Irene estava engolin- do o mar com os olhos e regurgitando”. Apertei meu braço em torno dela e invejei as certe- zas que Irene não sabia que tinha”. Por isso é que estamos sempre ligados para ver quan- do será o próximo lançamento de Adrienne, para derrubar várias de nossas certezas.

Com longa e venturosa carreira na imprensa, a jornalista Sonia Nabarrete começou a flertar com a literatura há pouco tempo, tendo já participado de diversas antologias, invariavelmente com sua temática favorita, o sexo, e assim conquistando seu “leitorado”. “Eretos” (@Link Editora, 2017) é o seu primeiro livro solo, no gênero novela (algo entre o conto longo e o romance). Nele, Sonia parodia o famoso “O caso dos dez negrinhos”, de Agatha Christie, transpondo a história para uma ilha paradisíaca no nordeste brasileiro onde se pratica muito sexo. Membros do grupo vão sendo misteriosamente exterminados sempre na hora do coito, um a um, num clima de suspense. Curiosa aqui para ver Sonia se arriscar em outras temáticas, diversificando sua produção.

Como todo mundo, infelizmente, acabo lendo bem menos poemas do que ficção. Mas recorro a eles sempre que me sinto uma uva passa de tão seca. Eles me reidratam. É o caso da poeta paulista Sandra Regina cuja produção me impactou na primeira leitura. Ela já tem vários livros publicados, e destaco aqui o “Haicaos” (Limiar, 2012), obra bastante coesa que ela divide com o pernambucano Múcio Góis, equiparando e equili-brando os estilos de cada um.  Com leveza e assertividade Sandra Regina nos brinda com poemas de estética curta, que fazem lembrar o Haicai, como este  aqui: “Com tato:   os seios/ e os versos/ cabem na calma/ da tua mão”. E outro “Lâmina:   ainda me machuca/ a falta da tua barba/ na minha nuca”. Em vista disso fazer o quê? Virei fã.

A gaúcha Luciana Setúbal também integra esta nova safra de autoras, e depois de algu- mas participações em coletâneas, já está em seu segundo livro. O primeiro, de contos, mostrava uma autora em formação, afiando suas garras e já criando expectativas. Seu segundo, o romance “Ryukyu” (Penalux, 2017) já nos traz uma boa engenharia do texto e uma busca de linguagem na história da viúva Sabelle, Yolanda (a sogra), Ico (filho), Alix (filha) que se revoluciona com o surgimento de Aran, filho do falecido. Setúbal vai fundo no fio de sentimentos negativos que envolve todos os cinco personagens muito bem- -construídos, transitando com desenvoltura entre mágoas, inveja e vingança. Depois desse salto, ficamos à espera das surpresas que ela nos revelará no próximo.

E para não ser chamada de nacionalista fanática, também comento aqui uma leitura re- cente que me impactou: a italiana Elena Ferrante simplesmente me tirou do chão com seu “A filha perdida” (Editora Intrínseca, 2016). Sem papas na língua e com uma sinceri- dade desconcertante, ela derruba um por um os mitos da matter dolorosa com suas refle- xões honestas sobre a maternidade. É a história de uma professora universitária que se sente aliviada quando suas filhas moças vão morar com o pai em outro país e decide pas- sar as férias de um mês numa praia. Lá acaba se aproximando de uma família barulhen- ta e falastrona que a atrai e repugna na mesma medida, pois reconhece neles sua heran- ça napolitana. Não é fácil criar personagens que nos surpreendam a todo momento, e Elena é especialista nisso.

#euleiomulheresvivas

 

 

 

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A nenê do desamor

Love_Child_poster Zapeando os canais a cabo dia destes, assisti ao documentário “Love Child” (2014, EUA -Coreia do Sul, dirigido por Valerie Veatch). Ele traz a triste história de um casal viciado em jogos virtuais que, em 2010, passou 12 horas em uma lanhouse deixando sua primeira bebê de três meses sozinha em casa. E ela morreu de fome.

O caso foi a julgamento e, como o casal era pobre, foi designado um defensor público. Sem saída, em meio ao clamor público, ele arriscou-se a alegar insanidade. Com isso, esse advogado não apenas tornou mais branda a pena imposta a eles, como levou o mundo todo a refletir sobre essa nova doença social.

E o mais estarrecedor: enquanto a filha morria, eles “cuidavam” de outra criança, um avatar que criaram num jogo de RPG chamado Prius, que envolve o uso de armas e habilidades para a sobrevivência. Ambos, marido e mulher, estavam desempregados e, como muita gente, há algum tempo vinham vivendo num estado de espírito quase catatônico, ganhando algum dinheiro vendendo itens que criavam para essa realidade paralela.

Passatempo? Negócio? Esporte? Ou apenas uma febre decorrente do grande incentivo do governo da Coreia do Sul, naquela época perto de se tornar líder mundial em TI (Tecnologia da Informação)?

O documentário é conduzido pelo depoimento de policiais, investigadores, juristas e jornalistas envolvidos no processo que envolveu a discussão de questões como negligência, responsabilidade, intenção ou não de matar, dependência emocional e a responsabilidade do estado em incentivar jogos on line. Eles, inclusive, estavam tão fissurados nos jogos que nem cuidavam direito de si próprios, não se alimentavam direito, não dormiam.

O julgamento durou dois meses, atraindo a atenção mundial para a questão. Ao final, o pai foi sentenciado a um ano de prisão, a mãe – muito jovem – não foi presa. Durante o processo, ela engravidou novamente. Desta vez, ambos prometeram nunca mais jogar e se mostraram dispostos, enfim, a aprender como lidar corretamente de uma criança, porque aquela primeira gestação foi um acidente em meio ao caos em que estavam vivendo.

O Prius foi tirado do ar em 2013 depois de seus participantes terem atingido o nível 91 de vida (91!). Mas outros jogos continuam bombando não só na Coreia como mundo afora.

O que é mais chocante nessa história tristemente real é que a nenê chamava-se Sarang, que significa “amor” em coreano. Mas em sua curta existência, ela não recebeu isso dos seus pais perturbados pelas contingências. Ao final, o documentário joga na nossa cara a frase “Como um peixe sabe que está na água?”.

O princípio

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“Há um terrível momento para muitas almas, quando as grandes alterações do mundo, os mais amplos destinos da humanidade, que repousavam indiferentes nos jornais e outras leituras negligenciadas, entram como um terremoto em suas próprias vidas (…)”

A frase é de George Eliot (1819-1880), escritora inglesa que começou a escrever tardiamente, aos 40, e de tanta importância que é comparada a Virginia Wolf, Carlyle e Dickens. Foi considerada A Voz de um Século. Infelizmente pouco conhecida por aqui, temos apenas traduzido para o português o seu romance Daniel Deronda. 

Essa frase bem poderia ter sido escrita por mim.