Erotismo no novo-velho mundo

O erótico é o domínio da sedução, do imaginário. O pornográfico, o domínio da excitação, dos instintos. No Brasil, o desejo e o prazer ainda são muito relacionados com a transgressão e temos pouca literatura boa nesse gênero. Talvez por isso eu goste tanto das autoras portuguesas que se aventuram nesta área. Em seus textos, o desejo surge quase sempre como um sentimento inadequado, como que a exigir uma certa ousadia para que ele seja vivenciado.

Nasceu e vive em Lisboa Maria Teresa Horta, uma das minhas autoras preferidas. E dela, cito aqui as últimas linhas de um conto (Mônica) que considero incrivelmente sensual :

…Os lençóis enrodilhados ficavam no chão quando saíam para o corredor sujo e escuro, a cheirar a gordura fria, entranhada, de cozinha mal lavada. Mas os dois sentiam somente o odor a orgasmo que levavam na pele, enquanto a contragosto desciam as escadas, tropeçando na boca um do outro.”

(*) A pintura é da americana Georgia O’Keefe (1887-1986), mestre na arte do erotismo.

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Um futuro sem sonhos

Muitos autores sofrem para escrever mas, para alguns, esse é um ato prazeroso. É justamente esse prazer de narrar o que mais fica evidente em Réquiem: sonhos proibidos, romance de estréia de Petê Rissatti que nos propõe pensar num futuro em que o mundo é regido por um governo totalitário que, temendo a natureza anarquista dos sonhos, proíbe as pessoas de sonhar.

Na trama, os cidadãos são avisados por carta que, a partir daquela data, todos terão de tomar o Réquiem (Repressor Químico para Ecmnésia Mensurada), um medicamento que anula qualquer possibilidade de sonhos, distribuído gratuitamente e de uso obrigatório. Todo e qualquer sonho será rastreado e a punição implicará em multas e execuções. Ninguém quer se arriscar, mas Ivan G., um mero funcionário público, certo dia se esquece de buscar sua cota mensal do medicamento, pega no sono sem antes tomar a sua dose diária e, inadvertidamente, acaba cometendo o crime. A partir daí, a vida desse burocrata pacato, nada ambicioso e que jamais cultivou pensamentos subversivos sofre uma reviravolta e ele se vê envolvido com os revolucionários Sonhadores, numa batalha de morte da resistência armada com o Governo opressor.

À primeira vista, a premissa soa simples, mas ela discute a questão do uso pervertido dos avanços da tecnologia por líderes destituídos de ética. Como escreve Luiz Brás na orelha do livro “O controle absoluto da mente dos cidadãos, de sua subjetividade, sempre foi a aspiração suprema de todos os Estados totalitários. Se no século 20 ainda não havia tecnologia capaz de realizar esse desejo, nada garante que as ditaduras do século 21 não desenvolverão tal tecnologia […]com novas e mais refinadas técnicas de controle psicológico e social.”

Com enredo fluido em parágrafos longos (característica da escrita alemã adquirida em seu trabalho como tradutor), Petê leva o leitor a um passeio nos meandros do poder e seus desvãos, bem como no coração do comando dos insurgentes por meio de personagens bem construídos. Realidade e ilusão parecem se misturar até o desfecho final, absolutamente inesperado, que nos faz rever mentalmente toda a história e tentar descobrir quando ela de fato começou e, se sequer, terminou. Um feito e tanto para um autor jovem, com apenas dois contos publicados em antologias.

Na contramão das amenidades perversas feitas para embotar a capacidade pensante do leitor, pode-se dizer, sem medo de errar, que Réquiem: sonhos proibidos se constitui numa boa aposta da Terracota Editora cuja proposta é investir na produção nacional, tendo em seu catálogo autores consagrados como Moacyr Scliar, Raimundo Carrero, Márcio Souza, Menalton Braff, Nelson de Oliveira, Andréa Del Fuego, Tatiana Belinky, Heloisa Pietro, entre outros.

Réquiem… é um belo exemplo da atual boa literatura de entretenimento. Atentas ao mercado, as grandes editoras estão abrindo espaço para esse seguimento e criando novos selos, pela sua simples capacidade de atrair o leitor jovem ou o leitor bissexto, aquele que raramente lê ficção. Com essa estréia, Petê Rissatti mostra que veio para ficar, pois ele nos conta que já tem gente pedindo a continuação dessa história. Quem sabe um Réquiem nº 2. Mas a minha sugestão é que ele nos traga um “Pré-Réquiem”, já que as origens de Ivan G prometem render histórias bem estimulantes.

208 páginas – R$ 35,00

Pode ser encontrado Na Livraria Cultura: http://virou.gr/MhYIeD
Na Livraria da Folha (com desconto): http://virou.gr/M02gOC
No site da Terracota (com desconto): http://virou.gr/M02lBP